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O Autor Nacional e a Liberdade Poética




A língua portuguesa e eu nunca tivemos uma relação muito íntima. Ainda estamos flertando, conhecendo-nos, e confesso que nos desentendemos com certa frequência. Nossa primeira grande desavença veio do verbo “querer”. Tá certo, quem quer faz, mas na realidade não é bem assim. Quando flexionados, verbos viram “quiser” e “fizer”. Sacou a diferença? Por que não “quizer”? A constituição da palavra é “quase igual” (minha bisavó diria que a expressão está errada, pois, se é quase, não é igual), mas uma usa o S e outra o Z. Ainda procuro uma explicação lógica para essa diferença.


Apesar do inconformismo sobre isso, confesso que o meu maior problema é com o abrasileiramento de palavras gringas. Por que não uma tradução? Mas, enfim, sou somente uma reles mortal e, nesse caso, tenho a licença poética a meu favor, posso continuar escrevendo champagne com glamour e meter um itálico para deixar ainda mais chique. Afinal, sou uma pessoa muito visual, e o desenho das palavras é algo que salta aos meus olhos.


Recentemente, escrevendo romances de época, deparei com algumas situações. Minha revisora amada, idolatrada, salve salve, tem uma paciência fora do comum para comigo e meus questionamentos (imagino que há momentos em que ela queira me matar). Enfim, fui obrigada e enfiar um baita de um E no fim da palavra “lord”, porque ela não consta do digníssimo VOLP (Vocabulário da Língua Portuguesa), como é o caso de “lady”. Agora pensa, se lady não tem tradução e consta no vocabulário, por que tenho que usar lorde e não lord?


Mas a cereja do bolo foi o tal do primeiro-ministro. Pra que colocar hífen num lorde tão importante? Além de o obrigarem a usar um baita de um E, ainda lhe enfiam um hífen. Coitado, morro de dó. Pior são os ministros de merda. Se um deles for o primeiro ministro a ser nomeado, o bonito sai ileso, todo chique sem o hífen (e olha que ele não usa cartola, casaca, luvas, não puxa a cadeira para as damas, muito menos se levanta quando uma chega).


Esqueci de comentar que, estudando, deparei com um cara de quem sou fã, Raimundo Carrero, que me apresentou a técnica da pulsação narrativa. Ele vem e enfia vírgula, transformando frases em estrofes. Coisa de gênio que domina pontos, vírgulas, ponto e vírgula e tudo mais. Um dia chego lá.


Em uma das minhas aulas com a minha querida revisora (com sua infinita benevolência), recebi o texto:

" A escrita é uma urgência que se faz aprendendo a descobrir novas linguagens dentro da língua matriz. A maturidade chega, talvez, quando o escriba aprende a desrespeitar com delicadeza as regras e os ritmos da sua voz." (Ondjaki).

Pois bem, tenho muito capim pra comer antes de chegar à unha do dedão do Graciliano Ramos, por enquanto só me resta estudar. Agora a minha meta de vida é essa tal maturidade (que tenho certeza de que virá com transpiração, e não inspiração), para poder ousar a experimentar a tal da liberdade poética.


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