Não Pare de Sonhar

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Sonho

 

 Palavra de origem proto-indo-europeia: Swepnos. Em latim: Somnium. Em inglês: Dream originada do nórdico antigo: Draumr. Do proto-alemão: Dragma, que significa decepção, ilusão, fantasma. Podemos designar sonho como a operação inconsciente das faculdades intelectuais, imperfeitamente despertadas em quem dorme. Ou simplesmente fantasia, utopia, ficção, visão e, porque não inspiração?

 

 

Prólogo

 

Após desligar o telefone, Iza caminhou até a sala de televisão, indo até a enorme estante. Em uma das prateleiras encontrou o que procurava. Uma caixa de papelão grande, coberta por uma colagem de imagens, frases e fotos que tinha feito aos quinze anos. Sentou no chão colocando a caixa entre suas pernas. Antes mesmo de abri-la, seus olhos já não conseguiram mais segurar sua dor. Nem mesmo lembrava o que poderia encontrar ali. Já se passaram muitos anos sem revirar as provas do passado. Preferira ignorar a reviver suas dores.

Naquele momento precisava tocar em tudo que tinha guardado para ter certeza que um dia o conteúdo que jazia ali havia feito parte de sua vida. Quando enxugou as lágrimas que insistiam em cair, juntou as forças que ainda lhe restavam para abrir a caixa de recordações. Escutou passos. Virou-se e viu seu filho pronto para ir à escola.

― Mamãe, já estou pronto. Podemos ir?

Estendeu a mão para o garoto. Puxando ele para seu colo, deu-lhe um abraço apertado. O menino, mesmo percebendo a tristeza nos olhos da mãe, retribuiu o abraço sem questionar.

― Meu amor, hoje você não vai para aula... ― buscou palavras, sabendo que não lhe diria naquele momento o motivo de sua tristeza ― Vai trocar de roupa e peça a Maria para te ajudar.

― Yes! ― comemorou sem ao menos saber o motivo do surto de benevolência de sua mãe, Leonardo seguiu correndo para o quarto ao encontro do seu computador. Havia dias que tentava vencer aquele chefão e no dia anterior chegara bem próximo de conseguir.

Maria, sem entender a mudança brusca na rotina da casa, foi ao encontro de Iza.

― Iza? Está tudo bem?

― Ah, Maria... ― antes mesmo de tomar fôlego, para buscar palavras, suas lágrimas desceram involuntariamente. Maria sentou-se no chão puxando a amiga para um abraço.

Maria trabalhava na casa de sua mãe há quase quinze anos. Desde o nascimento de Léo, Maria se dividia entre trabalhar para mãe e filha.

― Achei que você estava no escritório! Fui levar um café e não te encontrei...

― Maria, o Noah morreu.

Maria parou em choque com a notícia, recostou-se na estante buscando algum apoio, olhou para o lado e viu a caixa de recordações. Por um instante o tempo parou e lembrou-se de quando começou a trabalhar na casa de Marta.

Havia começado naquele emprego há apenas uma semana. Iza estava eufórica com sua festa de quinze anos. Era uma festa pouco convencional e nada tradicional, não haveria valsa e muito menos um bolo de três andares. Foram montadas duas tendas e um palco, onde se apresentariam uma banda de rock que estava começando a fazer sucesso e um famoso DJ da cidade. Apesar de Marta ter contratado um bufê para o aniversário da filha, pediu a ajuda de Maria.

... Estava no banheiro acabando de ajeitar algumas toalhas quando ouvi a porta bater. Virou-se e deu de cara com Iza agarrada a uma parede de músculos. “Meu Deus”, pensou. Os dois não perceberam sua presença e continuaram o amasso. Como o casal estava se agarrando na porta, num beijo intenso, não tinha como sair dali sem ser notada. Depois de um tempo, longo demais para seu gosto, os dois se desvencilharam e perceberam que não estavam sozinhos.

Maria não pôde deixar de perceber a beleza daquele rapaz. Era alto, cabelos negros e lisos na altura dos ombros, forte, e seus olhos eram cor de mel. A beleza de Iza também não passava despercebida, era bem mais alta do que suas amigas, cabelos castanhos cacheados na altura dos ombros, que naquele dia estava preso com alguns fios soltos.

― Maria! ― advertiu chamando a atenção da funcionária que parecia fora de si.

― Desculpe Iza, passou um filme na minha cabeça. Como? O que aconteceu? Ai, meu Deus! O Léo... Como vai ser?

― Foi um acidente de moto. Ele estava voltando de um show ontem à noite. Morreu na hora. Só agora que o Max, empresário da banda, me ligou.

― Como pode ser?! Lembro de quando vocês se conheceram na sua festa de quinze anos. ― Maria disse, não contendo as lágrimas.

― Maria, por favor, preciso que você coloque essa caixa no meu quarto. Vou ligar para minha mãe. Preciso encontrar forças para contar para o Léo.

Saindo da sala, reuniu coragem para encarar a terrível realidade. Não sabia como contar para seu filho que o pai havia morrido. Viveram um grande e intenso amor. Casaram-se quando ela tinha vinte e um anos e há cinco anos estavam separados.

O casamento com um vocalista de uma banda de rock não era fácil. Mulheres, bebidas, drogas e loucuras das mais variadas. Iza não tinha deixado de amar Noah. O fim do casamento se deu pela consciência de que o que ele oferecia não era o suficiente para que se sentisse completa.

Não fazia o tipo de mulher certinha, porém, quando Léo nasceu, há sete anos, repensou sua vida. Começou a proibir as loucas festas da banda e a presença dos amigos de Noah em sua casa. Sentia necessidade da atenção do pai de seu filho nos assuntos domésticos, mas definitivamente não era o perfil do pop star.

Noah começou a tocar aos dezesseis. Aos dezoito conheceu Iza em sua festa de aniversário. Encantou-se loucamente pela princesa de beleza exótica. Não demorou muito para que a banda explodisse. Léo nasceu pouco tempo depois da chegada da fama.

Amava loucamente seu filho e sua esposa, entretanto a vida que o sucesso lhe proporcionava era tudo que sempre sonhou. Para ele continuar com a mulher de sua vida significava abrir mão da liberdade que tanto almejou. Era um bom pai, sempre presente, enchia o garoto de brinquedos, contudo impor limites e tarefas cotidianas nunca fora sua praia.

Após desligar o telefone com sua mãe, Iza caminhou lentamente para o quarto do filho. Marta havia alertado de que todas as mídias já estariam noticiando o acontecido. Não poderia esperar mais para conta-lo.

Ao chegar ao quarto, sentou na cama do garoto e o chamou para se sentar ao seu lado. Antes de dar a triste notícia ao filho, lembrou-se da conversa que teve com ele há um ano, quando sua avó faleceu.

― Meu filho, sabe que as pessoas têm uma missão para cumprir aqui na Terra, não sabe? ― disse afagando seus cabelos― E mesmo que elas não estejam mais conosco....

― Quem morreu mãe?

Aquelas palavras entraram como um punhal em seu peito. Não sabia como continuar aquela conversa.  Um nó se formou em sua garganta e mal conseguia respirar. Como um anjo, Maria entrou no quarto, tocou o ombro de Iza, dando forças para continuar. Quase em um sussurro respondeu ao filho.

Deu-lhe um abraço e assim ficaram um longo tempo. Rezaram juntos. Sentia o sofrimento dele misturado ao seu próprio vazio. A dúvida de ter tomado o caminho certo em sua vida e de não persistir o relacionamento com Noah doía em sua alma.

Capítulo 1

Um mês depois...

 

Dentro do possível, sua rotina voltava ao normal.

Léo já havia retornado às suas atividades há uma semana. Não foi fácil conviver com a perda do pai e o assédio da imprensa. Iza logo voltou ao trabalho. Ela administrava uma ONG que dava assistência às pessoas da melhor idade.

Desde a morte de sua avó, abraçou este projeto e Noah foi um grande colaborador. Apesar do divórcio eram grandes amigos. Alguns diziam que eles ainda acabariam juntos. Mesmo depois de algumas recaídas, os dois tinham certeza que aquela história de amor já tinha chegado ao fim.

Iza não acreditava mais, que um dia encontraria alguém. Quando separou, se aventurou em dois ou três casos, mas nada que a completasse ou despertasse seu interesse. Optou por sonhar acordada, pensava em situações que gostaria que acontecesse e com um amor para vida toda. Sua alma romântica ainda estava lá, por via das dúvidas era melhor mantê-la somente em seus sonhos.

Desde que Noah se fora, não conseguia mais fantasiar a sua vida imaginária.

Geralmente, antes de dormir, sempre criava, em seus pensamentos, uma história com final feliz para sua vida. Às vezes eram histórias longas que continuavam durante várias noites, semanas ou até meses. Com o calor dos últimos acontecimentos, nem se lembrava mais da última vez que havia mergulhado em sua realidade paralela.

Era uma sexta-feira à noite, estava em seu quarto olhando para a velha caixa em cima da poltrona. Há dias travava uma batalha interna entre abrir ou não sua “caixa de pandora”. O interfone tocou e, de pijama, foi atender. Era Marcos, seu melhor amigo.

― Oi! ― disse abrindo a porta, sabendo que, pela cara do amigo, não seria uma conversa fácil.

Marcos segurava duas garrafas de espumante na mão e revirou os olhos reprovando a aparência da amiga.

― Só depois de tirar esse pijama, vamos! ― andou empurrando a amiga para o quarto.

Iza logo acatou a imposição do amigo, enquanto ele colocava uma das garrafas no congelador e pegava as taças. Marcos foi ao encontro dela e se esparramou na cama.

― O Léo está com sua mãe? ― perguntou olhando discretamente para a caixa em cima da poltrona.

― Eles foram para Búzios. Léo teve uma semana de folga na escola, não consegui ir com eles, tinha muito trabalho.

― Não conseguiu ou não quis?

― Precisava de um tempo para pensar em tudo que aconteceu.

― Amiga, vem cá! ― ela se deitou buscando o colo do amigo. ― É difícil, eu sei, mas não se cobre, não se julgue e não se culpe por nada. Eu te conheço, sei exatamente o que está passando na sua cabeça.

― Nem eu sei mais! Está tudo muito confuso. Não consigo nem mais viajar pelas minhas histórias no meu universo paralelo.

― Já te disse que não concordo com essa sua fuga, mas respeito. No momento você tem duas alternativas. Encher a cara comigo e sair para dar uma volta ou encher a cara comigo e desbravar essa caixa que já está fazendo parte da decoração desse quarto ha um mês. Pode escolher!

― Não estou a fim de sair e nem sei se consigo remexer no passado.

― Estou com você! ― disse caminhando, trazendo a caixa para cama.

Iza virou a taça em um único gole e Marcos repetiu o gesto da amiga. Depois de encher as taças novamente, criou coragem e retirou a tampa da caixa. Dentro dela havia cartas, fotos, camisetas, o álbum de casamento e todas as recordações daquele amor.

― Pensei em dar ao Léo, afinal é a história dele.

― É por isso que ela está aqui até hoje? ― disse, encontrando uma camiseta regata da banda.

― Não sei. Talvez uma maneira de ficar mais próxima dele.

― Você nunca precisou disso. Tem suas lembranças e uma imaginação muito fértil que te leva para muitos lugares. ― disse ele virando mais uma taça.

― Eu nunca fantasiei com ele. Nos meus “sonhos”, o príncipe encantado não tem rosto.

― Sério? Você nunca me disse isso. Podendo imaginar o que quiser, nunca idealizou a aparência de um deus grego?

― Imagino somente situações, sexo quente, palavras, carinho... Sem forma definida.

― Tá bom! Para, que estou na seca! Está difícil encontrar um homem decente nessa cidade. ― disse ele, retirando uma camiseta de dentro da caixa. ― Posso guardar essa caixa? Quando estiver preparada você entrega para o Leozinho, pode ser? Isso não pode ficar dormindo no seu quarto com você para sempre. Veste essa camiseta e vamos sair para dar uma volta.

― Tudo bem pela caixa, pode guardar na estante da sala de televisão. Mas juro que não quero sair. Podemos encher a cara aqui mesmo, em homenagem ao Noah. ― pediu, tirando a camiseta da mão do amigo e vestindo-a. Era customizada e foi feita exclusivamente para ela na primeira turnê da banda, quando ainda namoravam.

― Incrível que ela ainda sirva em você. ― zombou Marcos.

Eram muito íntimos e, mesmo se Marcos não fosse gay, não se importaria de se trocar na frente dele, pois eram como irmãos. Tiveram uma noite muito agradável. Encheram a cara, choraram e também riram muito. Lembraram-se das histórias que viveram com Noah.

Marcos tinha razão, ela não precisava da sua caixa de recordações para lembrar o quanto tinha sido feliz. Era a reafirmação do que havia constatado há cinco anos: acabou. Hoje, do lampejo de felicidade, só restavam às experiências que tinha em seus sonhos, pois não se permitia se entregar ao amor na vida real. Precisava urgentemente voltar ao seu universo paralelo.

Já passava das duas da manhã quando Marcos foi embora. A visita do amigo tinha lhe deixado mais leve. Deitou em sua cama, ainda com a camiseta e fechou os olhos, se permitindo sonhar.

Estava na praia sentada na areia ao lado de Noah. Conversavam sobre amenidades quando ele tocou seus ombros e disse:

― Tivemos uma linda história de amor, pena que foi no tempo errado. Você merece ser feliz!

Não sabia como aquelas palavras invadiram seu devaneio, talvez fosse seu subconsciente gritando algo que não conseguia decifrar. Ajeitou-se na cama e tentou mais uma vez.

Estava na praia, sentada na areia sozinha. Contemplava o mar. As ondas se formavam e quebravam em sua direção. Quando olhou para o lado, avistou o seu homem saindo do mar.

Seu rosto era disforme, embaçado, não conseguia enxergar os contornos de sua face. Talvez esse fora um subterfúgio para não criar qualquer expectativa. Sabia que ele estava sorrindo, pois conseguia ver somente sombra de sua barba se movendo.

Ele era moreno, pernas bem torneadas, usava uma sunga branca tipo boxer, sua barriga era bem definida, ombros largos, braços fortes e um peitoral de tirar o fôlego. A nitidez com que podia contemplar aquele físico a espantava. Aquele monumento não tinha nome, mas poderia facilmente se chamar Apolo.

Quando chegou bem próximo, estendeu a mão para que ela levantasse, e sussurrou no seu ouvido:

― Fiquei te esperando no mar. Estou morrendo de saudades.

Iza sabia que as coisas iriam esquentar. Seu corpo ébrio se entregava ao desejo.  Ainda com os olhos fechados, abriu a gaveta do criado mudo e buscou o seu amigo de todas as horas.

Deleitava-se com a sensação daquele corpo colado ao seu. Podia sentir sua ereção roçando em sua barriga. Lentamente, ele a beijou. Pegou-a delicadamente em seus braços e a levou em direção ao mar.

Sem que suas bocas se separassem, “Apolo” deixou que seus pés tocassem a água. Abraçou-a e começou a deslizar suas mãos preguiçosamente pelas suas curvas. Iza sentia-se arder em chamas. A necessidade do seu corpo denunciava a saudade que sentia.

Uma mão de Apolo percorria seus seios por baixo do biquíni, a outra passeava dentro da sua calcinha. Em um gesto repentino, não menos carinhoso, apoiou suas costas em seu peitoral rijo. Começou a estimulá-la fazendo movimentos circulares de forma lenta e torturante em seu clitóris. Iza já estava desesperada e não tinha o menor controle sobre seu corpo. Rapidamente ele desamarrou o laço da calcinha do biquíni e a virou de frente. Iza olhou para ele e pela primeira vez viu que seus olhos eram negros e hipnotizantes.

― Eu quero você! Senti sua falta!  ― ele sussurrou.

Iza enlaçou suas pernas nas costas de “Apolo”. Ele recebeu-a em seus braços, segurando-a com força. Desvencilhou-se de sua sunga e a penetrou devagar.

― Sentiu minha falta? ― perguntou olhando em seus olhos.

― Ah! ― gemeu extasiada.

Não conseguia se segurar. Gozou mais rápido do que gostaria. Foi um prazer avassalador. Uma experiência quase real, que, por instantes, a fez esquecer o vazio que sempre a acompanhava depois de seus sonhos quentes. Aquele vazio ela conhecia bem. Adorava sua imaginação e o prazer que ela lhe proporcionava, portanto sentia falta de um corpo de verdade a envolvendo.

Frustrada, levantou da cama e caminhou para preparar um banho. Enquanto esperava a banheira encher, sentou-se na beirada rindo de si mesma. Havia apelidado seu príncipe de “Apolo”.

Sentia-se feliz por reencontrá-lo. Podia sentir o perfume dele em seu corpo. Começou a se tocar novamente.  Entrou na banheira e fechou os olhos, se entregando ao prazer. Chegou ao êxtase, enxergando os olhos de Apolo.

Ainda molhada, caminhou para sua cama e adormeceu com a imagem daqueles olhos.