A Viúva

Série Damas Perfeitas 

Livro 3

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Prólogo

 

Grove House, dezembro de 1854

 

Diante do espelho, Viollet tentava encontrar a mulher que fora um dia. Não se conhecia mais, sequer se via. Tal impossibilidade não se dava pelo pesado veludo negro que cobria a penteadeira, nem mesmo pelo véu que lhe tampava o rosto. Sua inquietação ia além do que os olhos podiam perceber.

Faltava-lhe algo, faltava-lhe vida.

Vida da qual não se julgava merecedora, não depois do que fizera. Era uma mensageira da morte, uma assassina. Estaria sempre dentro de uma redoma lúgubre. 

Vida que tirara do marido.

 Ao apertar o gatilho da arma de duelo, tornara-se o tipo de pessoa que sempre havia abominado. Igualara-se a Phillip agindo de forma covarde, vil, cruel. Sabia que deveria suportar as agressões que sofria, em silêncio, apática. Jamais poderia ter agido com tamanha impulsividade. 

Viollet afastou o véu, que lhe incomodava, mas, mesmo assim, não conseguiu ver sua imagem refletida. Diante do tecido preto que cobria o espelho, aos poucos, sua mente elucidava o que julgava óbvio. Todo o sofrimento que seu marido a fizera passar era merecido, um castigo pregresso pelo crime que ela iria cometer.

Ele sabia! Deus conhecia a predestinação de todos os seus filhos. Oferecera-lhe a Justiça Divina antecipada e agora era misericordioso dando abrigo a Viollet e a sua irmã, Flora, na casa da marquesa de Bristol. Ela não fazia jus à tamanha benevolência, sabia que aquilo era indesculpável. Deveria estar trancafiada na Torre de Londres, aguardando o dia em que sua cabeça rolaria diante dos olhares de todos. Mas o Senhor sabia que ela ainda tinha a missão de encaminhar a irmã para um bom casamento. Viollet acreditava que, depois que Flora se casasse, teria sua merecida penitência.

A culpa não lhe deixara um só dia desde setembro. Três meses haviam se passado e a cena do dia em que se tornara a viscondessa viúva era revivida durante dias e noites. Apesar de toda a abundância em que agora vivia, Viollet tinha consciência de que só não fora jogada na sarjeta porque Deus olhara por Flora enviando Sarah para acolhê-las e acalentá-las.

Como se não bastasse o tormento de não se sentir digna de tamanha bondade, era obrigada a conviver com John, que visitava a casa da irmã quase que diariamente. Jonh! Oh, Jack, por que não fui capaz de esperá-lo?  Iludida pela possibilidade de salvar o pouco que lhe restava de sua família, caíra na armadilha de Lorde Phillip Smith. E, mesmo que não enxergasse razão para continuar existindo, era por Flora que ainda se mantinha viva. Recebendo uma ajuda que sequer merecia.

Em meio a lamúrias e preces, nem percebeu quando se pôs de joelhos, agarrada ao rosário. Lembranças, lágrimas e orações se fundiam em um murmúrio ininteligível que reverberava pelas paredes do ostentoso quarto em Grove House.

A luz tomou o cômodo bruscamente.

Pequenas partículas de poeira bailaram pelo ar trazendo uma onda de pânico. Os olhos de Viollet ardiam, os joelhos formigavam. Já não era tão habilidosa em esconder as emoções, seus nervos pareciam fora de controle.

O pavor se tornou ainda maior ante a lembrança de que Phillip jamais admitiria tamanho desleixo com a limpeza da casa. Ela esfregou a barra do vestido contra o piso repetidas vezes. Mergulhava em dolorosas lembranças, uma teia na qual havia anos se prendera.

Phillip jamais a perdoaria, seria açoitada e violada até que ele se desse por satisfeito. Como poderia permitir tamanho descuido com a limpeza?

Seu corpo tremia, não conseguia se controlar. Sabia que tinha que se manter firme, seu marido apreciava sua capacidade de suportar o medo e a dor, entretanto, naquele momento, ela não encontrava forças.

Quando sentiu uma mão sobre um ombro, prendeu todo o ar que havia aspirado e parou instantaneamente. Sabia o que aconteceria. Ele fingiria o mínimo de empatia, tiraria sua roupa e castigaria seu corpo. Com os olhos fechados, ela estava pronta para receber sua punição.

— Viollet! — ouviu ao longe a voz de Marie. O que ela estava fazendo?  Sabia que não podia gritar. — Viollet — a voz insistente deixava seu controle por um fio.

Ondas de tremores tomaram o corpo de Viollet. Sentiu a face banhada pelas lágrimas, nem as percebeu caindo. Os soluços presos lhe rasgavam a garganta. Ela não seria poupada, seu castigo seria longo e doloroso.

— Viollet, minha querida, está tudo bem — a voz doce de Marie tentava acalmá-la, Viollet podia sentir a mão que acariciava seus cabelos. — Nada mais vai lhe acontecer, Philip está morto.

A viúva foi tomada por um lapso de razão não menos lancinante do que a própria realidade.

— Eu o matei.

— Não! — Marie afirmou incisiva. — Eu apertei o gatilho...

— Ele não morreu no primeiro tiro — contou o que lhe afligia com um fio de voz. — Ele se mexeu, não estava morto quando você saiu. Atirei com a segunda arma. Sou a assassina do meu próprio marido.