A Marquesa

Série Damas Perfeitas 

Livro 1

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Prólogo

 

Dezembro de 1850

 

Pela janela da carruagem, Thomas avistou o imponente jardim de Lilleshall. Não havia flores como de costume, as belas rosas e narcisos deram lugar a uma paisagem em tons de ocre. O caminho estava coberto por folhas de matizes avermelhados, a brisa fria anunciava o fim do outono, enquanto o sol se despedia tingindo o céu com várias nuances de dourado. Encontrou um momento de paz se entorpecendo com o cheiro de terra molhada, ao som harmônico dos cascos dos cavalos triturando o folhiço.

A longa viagem de Suffolk a Sutherland fora inquietante, estar em uma diligência com a família durante dois dias era desesperador. O breve momento de silêncio era saboreado como uma torta de amora recém-saída do forno.

Seu pai, lorde George Hervey, o segundo marquês de Bristol, parecia fatigado pelo próprio discurso sobre as responsabilidades de um herdeiro. Depois de passar quase toda a viagem enumerando as futuras obrigações de Thomas, recostava-se ao assento de couro, mantendo os olhos fechados. Sua mãe, Lady Joana Hervey, bordava algo indecifrável, absorta nos próprios pensamentos. O irmão um ano mais novo, David, parecia contemplar a paisagem tanto quanto ele.

Thomas Hervey, o herdeiro do marquesado de Bristol, havia desistido de contrariar as vontades do pai, estava a caminho de fechar o acordo que determinaria seu futuro. Passaria vinte dias na casa do tio Augustus, duque de Sutherland, para selar o compromisso com a prima.

Sarah Granville Anson, a filha mais nova da tia falecida de Thomas, era a escolhida, aquela com quem ele concretizaria uma das maiores responsabilidades de um aristocrata:  casar-se e gerar um herdeiro. Sarah! Se ao menos fosse Ann, pensou.

À medida que os anos se passavam, o fardo de ser o primeiro filho se tornava cada vez mais pesado. Além do título que herdaria, Thomas fora designado para dar continuidade à carreira política de seus ancestrais no Parlamento.

O avô materno, a quem considerava como pai, era o único que compreendia suas angústias. Lorde Granville era seu mentor, conselheiro e quem lhe ensinara a apreciar a vida parlamentar. Suspirou lamentando não ter a companhia do ancião naquela diligência, mas nada podia fazer a esse respeito; o velho, desde o falecimento da filha mais nova, cortara qualquer contato com o duque de Sutherland e seus filhos.

Thomas também lamentava os entraves que antevia na própria carreira política. Seus pensamentos liberais eram uma verdadeira afronta ao marquês, que se orgulhava dos antepassados conservadores.  Este embate ele desejava postergar o quanto conseguisse. 

— Eu amo este lugar — assobiou David com meio tronco para fora da carruagem.

— Tenha modos, David — esbravejou o marquês enquanto puxava o filho mais novo pelo braço, para que se sentasse novamente.

— Disse que deveria tê-lo deixado em Cambridge — rosnou Thomas, certo de que não era boa ideia se ausentarem nos últimos dias de aula na universidade, antes do recesso de Natal.

— Não vou discutir novamente com você, Thomas — o marquês franziu o cenho, encarando o herdeiro com os olhos em chamas —, é muito importante que toda a família visite sua futura noiva e, além do mais, David é mais afável do que você. Precisamos impressionar o duque de Sutherland, você irá precisar do apoio de seu tio.

— Não consegue perceber o quanto tudo isso é ... — Thomas desistiu de encontrar uma palavra que definisse tamanho absurdo. — Ela é uma criança!

— Ela tem treze anos, e fui informada de que parece já estar apta para gerar um herdeiro — sua mãe, que permanecera calada por quase toda a viagem, discursava com naturalidade sobre as regras de sua pequena sobrinha, que haviam começado. — Não precisa fazer essa cara, Sarah só debutará aos dezesseis.  Você terá tempo suficiente para terminar os estudos e se preparar para a sucessão. — Colocou o bordado dentro de uma bolsa de couro. —  Você precisa aproveitar todo o tempo livre que tem para se aproximar de sua futura noiva, só assim poderão ter um casamento feliz e com muitos filhos.

— Não existe casamento feliz — murmurou o pai em tom desdenhoso.

Antes que começassem uma nova discussão, Thomas se levantou, quase batendo a cabeça no teto da carruagem. Saltou com o veículo ainda em movimento, repetindo a traquinagem do irmão, que já havia feito o mesmo, assim que a mãe começara a falar.

Estava farto do discurso da mãe sobre a importância da harmonia no casamento. Também já não suportava a palestra do pai acerca das responsabilidades de se carregar um título e dos relatos sobre os feitos dos antepassados no Parlamento.

Quando seus pés tocaram as folhas secas, apertou o passo, sentindo a umidade atingir a barra das calças. Correu em direção ao irmão, sentindo-se como um cervo fugindo da mira de uma carabina. A sensação de ardor nos pulmões era revigorante. Desacelerou o ritmo à medida que se aproximava de David e, caminhando ao lado do irmão, tentou controlar a respiração.  

— Sarah é uma menina doce — David rompeu o silêncio.

— Você enxerga doçura em um limão.

— Deveria tirar um tempo para se distrair, Thomas. Anda intragável.

— Tenho vinte e um anos, deveria estar em Cambridge para os exames finais, assim como você.

— Não sei quanto a você, mas fiquei muito feliz em conseguir uma dispensa especial dos exames finais. Vou aproveitar minha breve temporada em Lilleshall e você deveria fazer o mesmo.

O herdeiro estreitou os olhos, David parecia alheio a toda pressão que Thomas sofria. Para o irmão mais novo tudo era mais fácil. Não que fosse um bon vivant irresponsável; com apenas vinte anos, o filho mais novo do marquês tinha planos de multiplicar suas rendas investindo em livrarias e confeitarias em Londres.

David era dono do próprio futuro. Thomas invejava a liberdade que o irmão gozava, liberdade esta que ele mesmo não tinha. Se ao menos pudesse escolher a própria esposa... bufou conformado. Passaria os próximos dias acompanhado da prima irritante, o consolo seria a presença angelical da doce e frágil Ann.

 

***

 

Sarah examinava o próprio reflexo no espelho da penteadeira. Seus seios começavam a mostrar um discreto volume. Pensou se um dia seriam do tamanho dos de Ann ou dos de Lucy, que eram fartos e moldavam o espartilho de maneira elegante. Ainda se sentia tão menina e agora...

Tentou controlar as emoções, um nó formou-se em sua garganta; respirou fundo, tentando esquecer o turbilhão por que passara nos últimos dias. A fragilidade da saúde da irmã, informada pelo médico da família recentemente, roubara-lhe o chão. Como se não bastasse tamanha angústia, acabava de saber pela governanta, Sra. Lucy Turner, que estava prometida para o primo mais velho.

Ao saber que se casaria com Thomas, foi inevitável sentir-se decepcionada. Nunca estivera em seus planos casar-se, tinha outras aspirações.

Sra. Turner escovava-lhe os cabelos em silêncio, enquanto Sarah, de cabeça baixa, brincava com os grampos entre os dedos. Lucy sempre fora mais do que uma governanta. Cuidava dos assuntos domésticos, das contas e era uma mãe para os filhos do duque de Sutherland. Era a senhora daquela casa, mesmo que para muitos não passasse de uma reles criada.

Sarah não se lembrava da mãe, a duquesa falecera quando a filha ainda era bem pequena. E pouco se falava dela naquela casa.

— Você está tão quieta — a governanta acariciou-lhe o rosto antes de começar a trançar seus cabelos.

Lucy sentia as mãos trêmulas, deveria ter sido mais cuidadosa ao dar a notícia à menina. O duque a incumbira de informar sobre a intenção de unir duas das maiores famílias do Reino Unido, mas Sarah era apenas uma criança. Apesar de possuir uma inteligência fora dos padrões, ainda assim, era muito jovem. A menina havia ficado introspectiva ao saber sobre o acordo de casamento e que toda a família Hervey estava a caminho de Lilleshall para as festividades de fim de ano.

— Não gostaria de me casar, quero ser uma parlamentar.

 A governanta se agachou diante de Sarah e ergueu-lhe o queixo com delicadeza.

— Já conversamos sobre isso, querida. Mulheres não se envolvem em política.

— Mas não quero me casar agora.

— Não será agora, minha menina. — Lucy acariciou seus joelhos com carinho. —  Irá se casar em três ou quatro anos. Seu pai e o marquês de Bristol concordaram que deve se aproximar de Thomas para estreitarem os laços o quanto antes. O duque quer vê-la feliz, Sarah.

— Eu tenho mesmo que me casar?

— É o que se espera. — A governanta se levantou e continuou o trabalho nos cabelos da menina.

— Por que não se casou?

Lucy suspirou, inclinando a cabeça para o lado de maneira maternal; podiam se ver através do espelho.

— Governantas se casam com o próprio trabalho, Sarah.

— Mas você não é uma governanta, deveria se casar com o papai. Adoraria tê-la como mãe.

Sarah viu Lucy engolir seco e cobrir os olhos. A governanta se virou, caminhando em direção à cômoda, a fim de disfarçar a emoção.

— Não vamos falar novamente sobre esse assunto — com a voz ainda embargada, colocou uma delicada coroa de flores no cabelo da menina. — Agora se apresse, seu pai quer vê-la antes do jantar.

— Vai jantar conosco?

— Hoje não, querida. Temos convidados e sabe como são os protocolos. Irá se sentar ao lado de seu pai, ele faz questão. O médico aconselhou que sua irmã permanecesse de repouso.

— Acho que lorde Thomas Hervey deveria se casar com Ann, eles têm quase a mesma idade.

— Sua irmã tem uma saúde muito frágil. Lorde Thomas precisa de uma esposa que possa gerar um herdeiro. — Lucy prendeu alguns fios que haviam se soltado. — Irá precisar de uma criada para ajudá-la com os cabelos, não sou muito boa nisso, e você agora é uma mocinha.

A menina deu um beijo em Lucy e a abraçou com carinho.  Nunca se imaginara casada. Tinha consciência de que nunca poderia ter uma carreira política, era uma mulher, mas gostava de se imaginar no parlamento. Naquela tarde seus sonhos foram esmagados pela realidade cruel da sociedade inglesa; “devo me casar e me tornar uma égua parideira”. Pelo menos se casaria com um futuro parlamentar, talvez Thomas permitisse que ela o ajudasse em sua carreira.

Enquanto caminhava pelo corredor, observava a ponta dos sapatos tocarem a parte azulada da passadeira do corredor.  Sentiu as pernas se desequilibrarem quando se chocou em alguém. Instintivamente, ergueu os olhos e o encontrou: Thomas. Não se lembrava do quanto o primo era alto. Deixou que os olhos contemplassem o porte atlético, os ombros largos, os cabelos desalinhados... Fechou os olhos, aspirando o aroma de cedro e limão. Ele a encarou com uma expressão indecifrável. Surpresa? Curiosidade? Exasperação? Em menos de um segundo, ela percebeu o misto de emoções que atravessara a face angulada, as covinhas... Como é bonito! Sorriu involuntariamente quando ele se inclinou para fazer uma breve reverência. Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, Sarah beijou-lhe a face e saiu correndo.

Iria se casar com ele! Seria a esposa do parlamentar mais bonito de todo o Reino Unido!