A Cortesã

Série Damas Perfeitas 

Livro 2

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Prólogo

 

Paris, Janeiro de 1851

 

A imagem refletida no espelho não revelava quem ela de fato era, muito menos sua alma conturbada. Marie nunca imaginara vestir-se de maneira tão voluptuosa. Embora estivesse acostumada a ver mulheres com decotes generosos e bochechas coradas pelo excesso de rouge, nunca se espelhara nelas. Marie Bourdon nascera e crescera dentro de uma casa de tolerância que pertencera a sua avó. Um dia seria a herdeira de Palais des Plaisirs, o bordel mais famoso de Paris.

Não se lembrava da avó, sequer sabia se um dia chegara a conhecê-la, mas sempre ouvia sobre ela com demasiado entusiasmo. A famosa madame Bourdon construíra a elegante maison close com a herança deixada pelo marido. Um empreendimento inovador, que ocupava meia quadra em Montmartre, no coração da boemia parisiense. A imponente construção de quatro andares funcionava como cabaré, casa de jogos e bordel. O céu e o inferno dos endinheirados europeus.

Assim como ela, todas as cortesãs residiam no último andar; cada uma tinha seu quarto para viver e receber os clientes. Marie nunca se deitara por dinheiro, valorizava sua virtude e, mesmo sabendo que esse era o destino das mulheres da família Bourdon, nunca quisera isso para si.

Fora abandonada pela mãe ainda bebê. O pouco que sabia era que Cécile Bourdon se apaixonara por um nobre inglês e que partira, deixando para trás a prostituição e a filha. Marie crescera nos corredores do antro que sempre considerara o purgatório e, ao completar doze anos, fora obrigada a trabalhar. Sua tia, a nova madame Bourdon, cujo nome de batismo nem mesmo Marie conhecia, era uma mulher cruel, que contabilizava todos os gastos da sobrinha e os cobrava constantemente.

A fim de um dia conseguir quitar sua dívida, Marie trabalhava servindo as mesas do grande salão de jogos, além de confeccionar roupas para as dançarinas do cabaré e para as cortesãs. Trabalhava dia e noite, mas sua dívida com a tia era abatida a conta-gotas.

A virtude de Marie era cobiçada pelos frequentadores do Palais des Plaisirs, corriam apostas e leilões pelos salões. Mesmo aos vinte e três anos, idade considerada bastante avançada, a jovem acreditava que madame Bourdon permitia que ela postergasse sua estreia esperando alguma oferta exorbitante no leilão da virtude da sobrinha.

Tinha planos de fugir, mas não conseguia economizar nenhum franco, toda a gorjeta que recebia era tomada; mesmo que Marie escondesse, a alcoviteira sempre encontrava.

Naquela noite fora obrigada a se vestir como uma rameira, o uniforme novo que deveria usar. Contemplava o vestido escarlate com ironia, ela mesma o havia feito. Ajeitou as extravagantes plumas que ornavam seus cabelos, posicionou alguns cachos na lateral do colo para tentar disfarçar o decote e respirou fundo. Seria uma noite longa e odiosa.

Se soubesse que sua vida mudaria naquela noite, David não estaria tão alheio ou maravilhado com tudo que via. O filho mais novo do marquês de Bristol aceitara o convite de lorde Phillip Smith, o visconde de Derby, para uma breve temporada em Paris. Com o primo John a tira colo. Inebriados pela luxuriosa atmosfera francesa, os nobres aristocratas estavam a caminho de um dos maiores bordéis da França.

No coração de Montmartre, o movimento de carruagens e pessoas não fazia jus ao adiantado da hora. Lanternas vermelhas iluminavam o beco estreito que dava acesso à entrada do Palais des Plaisirs. Era uma casa imponente, bem-cuidada, um convite para o pecado. Logo na entrada, mulheres seminuas recepcionavam os cavalheiros com um cálice de um líquido transparente, cortesia da casa.

Eles foram encaminhados para o salão de jogos enevoado por uma fumaça densa de tabaco. Havia dezenas de mesas espalhadas, e vários jogos eram oferecidos. Dados e carteado pareciam ser os preferidos entre os frequentadores. A bebida rascante ainda formigava na língua de David, deixando um gosto amargo.

Phillip os conduziu até uma mesa afastada, certamente para explicar as regras do estabelecimento. John e David nunca haviam visto nada parecido em seus parcos vinte anos, aquela era a primeira vez que visitavam Paris. Muito diferente das diversões monótonas encontradas na Inglaterra, aquela noite prometia ser memorável.

— O que me dizem? — Phillip estava confortavelmente esparramado em uma cadeira de braços, com um sorriso malicioso.

— Nunca imaginei que pudesse existir um lugar como este — respondeu David enquanto John, alheio à conversa, observava cada detalhe a sua volta.

O visconde de Derby era um homem vistoso, um libertino renomado. Herdara o título havia dois anos, e, pelos quatro cantos de Londres, corria o boato de que aos trinta anos finalmente resolvera encontrar uma esposa. Phillip parecia um frequentador assíduo do lugar, oferecia sorrisos e olhares maliciosos para as jovens libidinosas que circulavam pelo salão.

— Quero aquela — David anunciou com os olhos fixos na mulher de cabelos cor de cobre e os olhos mais verdes que ele já vira.

Uma gargalhada rouca e cruel tomou o ambiente, Phillip parecia se divertir à custa do amigo.

— Vá até aquela mesa e dê seu lance. — Phillip mostrou o caminho acenando com a cabeça, sustentava um sorriso perigoso nos lábios. — Há tempos tenho dado lances, e nenhum deles parece ser suficiente para Marie.

— Marie... — repetiu David, como se quisesse guardar aquele nome para sempre, sem desgrudar os olhos da ruiva.

Seria uma tolice competir por aquela jovem, era notório que ele não era o único que a desejava. Correndo os olhos pelo salão, David viu os espectadores, que pareciam despi-la com os olhos.

— Talvez esteja na hora de acabar com a concorrência — murmurou Phillip coçando o queixo. — Acho que não vieram aqui para jogar, desçam por aquela porta e verão o melhor espetáculo de cancã de toda a Europa.

David e John se levantaram e seguiram pelo caminho indicado pelo visconde. Phillip ergueu a mão e chamou seu objeto de desejo.

Ao reconhecer o visconde de Derby, Marie sorriu educadamente; ele a chamava, como sempre fazia quando vinha ao Palais des Plaisirs. Caminhou até ele desviando-se dos clientes mais inconvenientes. Não podia negar que aquele homem era um belo exemplar inglês. O habitué mais cobiçado entre as meretrizes. Era conhecido pelo seu desempenho na cama e por suas gorjetas generosas. Ela endireitou o corpo tentando recuperar o mínimo de dignidade, que seu vestido roubara.

— Minha querida Marie — ele se levantou rapidamente quando ela se aproximou e beijou-lhe a mão —, confesso que nunca a vi tão... — avaliou seu decote demoradamente e deixou a língua passear pelos lábios preguiçosamente — exposta.

— Monsieur Smith. — Ela fez uma reverência obsequiosa. — São os novos uniformes.

— Por favor, sente-se.

— Pardon, monsieur, eu não poderia.   Caso deseje, posso chamar Victória para lhe fazer companhia.

— Gostaria da sua companhia.

— Monsieur...

— Somente uma conversa. — Ele se levantou e puxou a cadeira para que ela se sentasse. — Prometo não tomar muito de seu tempo.

Marie estremeceu, sabia que, mesmo escondida, madame Bourdon estaria observando aquela cena. A dona do Palais des Plaisirs não frequentava os salões, a menos que usasse máscara para esconder a terrível cicatriz em seu rosto, mas todos sabiam que ela vivia se esgueirando para observar tudo o que acontecia.

— Imagino que não esteja se sentindo confortável com o novo uniforme — Phillip a trouxe de volta para o presente. — Não posso negar que o vestido revela suas qualidades, mas não é nem de longe apropriado para uma dama.

— Não sou uma dama.

Marie o fitou curiosa, Phillip a contemplava de maneira diferente, não do modo como sempre fazia; dessa vez havia um brilho distinto em seus olhos. Ela sentiu as bochechas corarem.

— Ainda. Mas algo me diz que essa vida não é para uma mademoiselle tão preciosa.

Marie desviou o olhar, era estranho como se sentia exposta, aquele homem parecia enxergar sua alma.

— Por favor, não fique encabulada. — Havia um sorriso vitorioso em seus lábios. — Confesso que tenho que me redimir de meu comportamento tolo nas últimas vezes que estive aqui. Eu deveria ter percebido que você é diferente de todas as mulheres que já conheci.

— Diferente?

— Essa vida não é para você. Está escrito em seus olhos. — Ele tomou um gole de vinho que apareceu na mesa, sem nem mesmo perceber que a bebida havia sido servida. — Sortudo será o cavalheiro que a tirar daqui. — Tocou a mão dela suavemente. — Imagino que já tenha ouvido várias propostas.

— Ninguém nunca me ofereceu algo parecido antes — sua voz soou esperançosa demais.

— Eu ficaria encantado em ser o primeiro, entretanto, no meu país, não se propõem algo tão importante a uma dama, a menos que se tenha certeza da anuência.

Marie sentiu-se tentada. Estava disposta a se tornar amante de monsieur Smith. Era a única chance que tinha de fugir dali. Doaria a virtude de bom grado, era a única coisa que tinha, o trunfo para se libertar das garras de madame Bourdon.

— E como uma dama poderia dar indícios de um interesse? — perguntou esperançosa, certa de que a sorte havia lhe sorrido.

— Case-se comigo. Diga-me que me aceita como seu marido e lhe darei o mundo.

O ar lhe faltou, Marie não esperava por aquilo. Piscou algumas vezes tentando recobrar a consciência, sair do torpor que a invadia. Casar? Marie Smith, a viscondessa de Derby.

— O senhor está se divertindo a minha custa. — Levantou-se abruptamente.

Phillip se colocou de pé elegantemente.

— Desculpe-me, jamais poderia propor algo assim num lugar como este. — Ele beijou-lhe a mão demoradamente.

Ainda sem acreditar no que estava acontecendo, Marie deixou-se levar e, quando percebeu, abria a porta de seu quarto para o futuro marido.

No dia seguinte quando acordou, ela encontrou uma rosa vermelha na cama, acompanhada de uma nota de Phillip.

 

 

 

Minha querida e doce Marie,

Jamais me esquecerei desta noite.

Estou voltando para Londres para preparar sua chegada.

Em breve voltarei para buscá-la.